Brasil 27: de onde vem a madeira que você compra?

Quanto vale a biodiversidade contida em um hectare de floresta? Qual a relação desse hectare com a qualidade de vida de uma pessoa em São Paulo e quanto vale isso?

Por Pedro Henrique Gorayeb Vitoriano Pedro Henrique Gorayeb Vitoriano 27/03/2014

São questionamentos como esses que Dario Guarita Neto, 37, administrador de empresas, e a equipe da Amata tentam fomentar junto a um público que não está muito acostumado a esse tipo de pergunta. "Nós queremos conectar a floresta ao setor financeiro, queremos trazer a discussão sobre sustentabilidade para a avenida Paulista", conta.

Guarita Neto conhece bem o tamanho do desafio que se propõe a enfrentar. Ele fez carreira em bancos de investimentos e fundou, em 2005, com Roberto Waack e Etel Carmona, a Amata –empresa que atua na produção e comercialização de madeira certificada.

SUSTENTABILIDADE

Em 2011, foram consumidos das florestas brasileiras aproximadamente 13 milhões de metros cúbicos de madeira legal, segundo dados publicados em 2012 pelo instituto de pesquisa Imazon. Desse volume, menos de 5% (596 mil metros cúbicos) foram produzidos com o selo de certificação que atesta que a madeira foi extraída de forma sustentável, de acordo com a FSC (Forest Stewardship Council), maior selo certificador no mercado nacional. Entretanto, esse percentual não considera a produção ilegal de madeira, estimada pela FSC em 33% do volume total.

Isso significa que a grande maioria da madeira consumida no país não tem garantia de origem, ou seja, não é possível dizer que não tenha sido retirada de forma danosa ao meio ambiente e é nesse ponto que a Amata inova ao entregar sustentabilidade. O principal produto da Amata é a madeira certificada, que tem origem em três diferentes modelos de produção operados pela empresa.

O primeiro modelo é o de manejo de florestas nativas. A Amata foi vencedora da primeira concessão florestal pública do país. Seguindo os princípios do manejo florestal de baixo impacto, ela administra 46 mil hectares da Floresta Nacional do Jamari, em Rondônia.

Guarita Neto resume como funciona o manejo da floresta: "A ideia é garantir que a taxa de retirada de árvores seja equivalente à taxa de regeneração da floresta, que é um metro cúbico de madeira por hectare por ano". Tal modelo também pode ser aplicado às florestas nativas particulares.

O segundo modelo de produção da Amata é a recuperação de árvores nativas e de áreas degradadas. A empresa realiza predominantemente o plantio de paricá, uma espécie natural da região Norte do país e que pode ser utilizada para diversos fins. O plantio comercial é feito nas áreas de uso alternativo do solo e nas áreas de reserva legal a serem recuperadas, ou seja, na parcela da propriedade que não é área de preservação permanente.

Por fim, a Amata também realiza o plantio, o manejo e a comercialização de florestas de espécies exóticas, em especial o pinus e o eucalipto. O plantio dessas espécies permite à empresa ganhar escala de produção, já que se trata de árvores com perfil mais homogêneo, de crescimento mais rápido (sete anos em média) e que são bastante procuradas pelo mercado.

HÁBITO

Evidentemente, todo o cuidado exigido pelo manejo florestal sustentável e pelos órgãos certificadores traz custos que os concorrentes da Amata não assumem. "A madeira em si é uma commodity. Mas a madeira certificada custa, na maioria das vezes, mais caro. O cliente que paga por essa diferença busca reputação", explica Guarita Neto. Essa busca é motivada principalmente por pressão de organizações governamentais, organizações da sociedade civil e, em menor, mas crescente escala, pela conscientização e mudança de hábitos de consumo do consumidor final.

"Para entrar no mercado europeu, a madeira tem que ser certificada. Aqui no Brasil, não. Mas esse cenário começa a mudar e nós estaremos bem posicionados quando isso acontecer", diz o presidente da Amata, que tem como principais clientes empresas da indústria moveleira e de construção civil.

VALOR

"Desde que fundamos a Amata não queremos ter uma empresa que precise de uma fundação para ter impacto social. O próprio negócio deve causar esse impacto", fala Guarita Neto. Nesse sentido, a empresa tem o desafio de, como diz o jargão de sustentabilidade da avenida Paulista, compartilhar o valor gerado pelo negócio entre as partes nele envolvidas, a começar pelas comunidades que vivem nas áreas de atuação da empresa.

De fato, as comunidades locais são fundamentais para o negócio da empresa. Para que uma floresta seja viável economicamente, a economia relacionada à floresta sustentável tem que substituir aquela relacionada à floresta derrubada (o valor da madeira mais o valor da área sem a floresta), algo que não é possível fazer sem a participação direta da população local. "A Amata faz o que faz também porque isso é importante para o negócio. A comunidade local faz parte do nosso modelo de negócio, que foi pensando para gerar valor a todos os envolvidos", completa.

Para envolver a comunidade e obter a chamada aprovação social de operação, a Amata busca desenvolver projetos que promovam o desenvolvimento local, ao mesmo tempo em que geram benefícios também ao negócio. Um exemplo é o programa de diversificação das atividades produtivas das áreas de reflorestamento, no qual pessoas da comunidade podem desenvolver atividades como o manejo de produtos não-madeireiros, apicultura e criação de animais nas áreas gerenciadas pela empresa.

ALINHAMENTO

Se a tarefa de estruturar uma operação sustentável já não fosse desafiadora o suficiente, o próprio negócio da Amata possui elementos bastante desafiadores. Trata-se de um negócio de capital intensivo, que exige grandes investimentos iniciais e possui uma expectativa de retorno em longo prazo. Assim, há a necessidade constante de alinhar acionistas e investidores com o plano de negócios. A empresa tem como acionistas, além de seus fundadores, bancos de desenvolvimento e fundos de pensão.

Segundo Guarita Neto, esse trabalho constante de promoção dos conceitos de sustentabilidade e de envolvimento de "stakeholders" (interessados) na causa e no negócio exige do empreendedor social muita persistência e convicção. "Essas são as características mais importantes de um empreendedor social, pois representam a chama daquilo que você quer mudar na sociedade".

Mas para uma mudança de hábito em específico, o presidente da Amata quer a ajuda de todos. "Não esqueça de perguntar de onde vem a madeira que você está comprando."

BRASIL 27

Iniciativa conjunta dos jovens Fabio Serconek e Pedro Henrique Vitoriano e contando com apoio do Centro de Empreendedorismo e Administração em Terceiro Setor (Ceats) da Universidade de São Paulo (USP), o Projeto Brasil 27 está visitando todos os Estados brasileiros para estudar, em cada um deles, um exemplo de negócio social. Conta com o apoio do ICE (Instituto de Cidadania Empresarial), das fundações Avina e Rockefeller e da Rede Omidyar.

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